"Nazaré", de João Fragoso



João Fragoso (1913-2000)
“Nazaré”, 1974
bronze, alt. 40 cm
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 28 Esc.


Escultura com desenvolvimento vertical, definida por vários elementos ondulantes sobrepostos, que evocam a movimentação do mar. Numa linguagem de compromisso com o registo abstracto ou conceptual, esta pequena escultura representa o Milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho, um milagre também ele arreigado de presença marítima.



João Fragoso dedicou parte significativa da sua obra escultórica à temática marítima. Mas, esta foi a única escultura da "Fase Mar" dedicada a uma terra – a Nazaré.

Nesta vila piscatória, em 1981, o artista apresenta a exposição “João Fragoso Fase Mar e 16 desenhos de pescadores”, de que existe o respetivo catálogo, assim como “O Mar e a Arte Minimal. João Fragoso” (1985), publicações editadas pelo Museu Dr. Joaquim Manso.

Projeta ainda um “Monumento ao Homem do Mar” em cuja maqueta em gesso, guardada no Município da Nazaré, uma figura masculina em contorção unir-se-ia com uma Onda, definindo um círculo onde mar e homem se fundiriam numa essência comum.


“Nazaré” foi adquirida ao autor no âmbito de uma exposição realizada no Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha, em 1978.


Barco “Senhor dos Passos”


Imagem: IFN 20965, José Pessoa / DGPC 

Barco “Senhor dos Passos” (miniatura)
Adquirido ao autor, Augusto Sabino, Nazaré, 1988
madeira, comp. 39 cm
MDJM inv. 1149 Etn.


O nome desta embarcação evoca uma das mais antigas e tradicionais manifestações da religiosidade popular da Nazaré – a “Procissão do Senhor dos Passos”, que normalmente decorre em março, no 4º fim-de-semana da Quaresma.

O barco original "Senhor dos Passos" era propriedade de Bento Estrelinha, com o registo N 1326 L. Foi construído na Nazaré por Júlio do Carmo Salvador, sendo registado em 7 de Maio de 1936.
Destinava-se à pesca costeira como auxiliar ou dentro da enseada da Nazaré. A partir de 28 de Fevereiro de 1974, dedicou-se à pesca local com arte xávega.
Era uma embarcação com as seguintes dimensões: comp. 4,29 m; boca 0,79 m; ton.bruto1,618 t.

Esta miniatura foi realizada por Augusto Sabino, em 1988, respeitando as cores originais da embarcação, vermelho, branco, preto e azul.
Trata-se de uma miniatura de embarcação de boca aberta, de fundo chato, com tábua de armar, remate da proa em forma de bico elevado e pontiagudo, popa com painel ou cortada rematada pelos respectivos cepo e corrimão. Apresenta coberta arqueada "pélé" e, sobre esta, duas travessas – fiéis – funcionando a inferior também como banco. Além do banco da ré, dois bancos apoiados sobre os dormentes e com as respectivas anteparas (para apoio dos pés dos remadores). Formada pelo "pau do meio" e último banco a "casa de água". À proa e à ré, um paneiro.
Aparelhado com 4 remos, 2 odres, 2 ferros, 1 seminho, 1 vertedouro, 1 xalavar, 1 rede, boça.

A "Procissão do Senhor dos Passos" é uma das mais antigas e tradicionais manifestações da religiosidade popular da Nazaré. Ao longo dos tempos, a Irmandade do Senhor dos Passos, sediada na Igreja da Misericórdia, na Pederneira, tem tido a seu cargo a sua organização, durante a Quaresma. Segundo Brito Alão, foi instituído em 1619 o caminho seguido por esta procissão até ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio. Este itinerário é sensivelmente o mesmo que o cortejo ainda hoje percorre.

Na Nazaré, a Procissão do Senhor dos Passos decorre em três dias: sábado, domingo (4º domingo da Quaresma) e segunda-feira. No sábado, à tarde, a procissão, precedida de rituais próprios, sai da Igreja da Misericórdia na Pederneira, encaminhando-se para o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio. No domingo, realiza-se a mais solene procissão destas festividades, tendo lugar o "Sermão do Encontro" (andores com a imagem do Senhor dos Passos e da imagem da Sua Dolorosa Mãe, a Senhora da Soledade), dirigindo-se, posteriormente, também para a Igreja do Sítio. Na segunda-feira, à tardinha, é a procissão do regresso à Igreja da Misericórdia, na Pederneira, onde permanecerão as imagens deste acto do culto.

+ Informação sobre este objeto em MatrizNet.

Algibeira



Algibeira

Tecido de algodão e várias outras fibras
Dimensões: alt. 32 x larg. 20; 12 cm
Oferta da autora
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 249 Etn.


Acessório do traje feminino tradicional da Nazaré, esta algibeira foi realizada pela costureira Celeste Lúcio dos Santos, natural do Sítio (4 março 1902 – 22 fevereiro 1997).

A “algibeira” é cingida à cintura da mulher por atilhos (um de cada lado). Para maior segurança, é resguardada sob a “saia de cima”, sempre do lado direito e fixada à “saia de baixo” por um alfinete de dama. Serve para a mulher transportar o dinheiro ou "papéis de valor"; continha, muitas vezes, um amuleto (conhecido por "Breve") como forma de proteção e/ou superstição religiosa.

É uma bolsa confecionada com retalhos de diferentes cores e qualidades (escocês, castorina, …). De corte arredondado, tem duas entradas na parte da frente e uma na posterior, que fecham com botão. Na parte superior e de cada lado, leva um “fitilho” de algodão para cingir à cintura. A metade inferior é sub-circular e tem a aparência de um vaso cintado de boca larga. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido florido.

Em situações de luto, também a algibeira usada é de cores escuras ou totalmente preta.

Ainda hoje é utilizada pelas mulheres que continuam a vestir “saia de roda” no seu quotidiano.


Mais informação sobre esta algibeira em:
MatrizNet

Mais informação sobre esta e outras algibeiras da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso em:
MatrizNet

Mais informação sobre o projeto “Conversas de Algibeira”, desenvolvido de parceria entre o Museu Dr. Joaquim Manso e a Universidade Sénior da Nazaré (2010):
http://mdjm-nazare.blogspot.pt/2010/03/universidade-senior-da-nazare-visita.html
http://mdjm-nazare-objectodomes.blogspot.pt/2010/03/algibeiramdjm-inv.html




Fio de algodão



Fio de algodão
comprimento: 13190 cm
século XX d.C
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 1124 Etn.

Na Nazaré, a pesca de arte xávega foi uma pesca artesanal recorrente durante anos, tendo-se deixado de praticar no final dos anos 1980. 

Para os seus pescadores, fios como este eram a base para a constituição da respectiva rede ou arte. 
Trata-se de um fio de algodão usado para "entralhar" (tecer) a rede da arte xávega, também denominado “cavalgar”. Era encascado, ou seja, tingido de escuro através da utilização de alfarroba ou aroeira. Compõe-se de quatro meadas com os seguintes comprimentos: 34,60 m; 34,30 m; 34,40 m; 28,60 m. 

Doado em 1985 por Joaquim Codinha Bagos, pescador da Nazaré, que andou também na pesca do bacalhau e, posteriormente, foi proprietário de uma embarcação (pesca artesanal e do alto).

Baú de pescador


Baú de pescador
folha zincada e policromada
alt. 23 x larg. 36,5 x prof. 29,5 cm
Doado por José Avelino Maranhão Grilo, 2016
MDJM inv. 2098 Etn.

Este baú pertenceu a Joaquim Lourenço Alexandre, que foi pescador na Nazaré por conta de outro. Servia para transportar o farnel e outros pertences para o mar. 

Trata-se de uma caixa metálica de formato rectangular e pintada de azul, com tampa convexa decorada com duas listas amarelas e pega ao centro enrolada por corda pintada de amarelo. Nos dois lados mais estreitos, apresenta pintura de uma bóia de salvação.

Por norma, estes baús eram comprados em folha zincada, sendo posteriormente pintados ao gosto do pescador seu proprietário, com temas mais ou menos naïf e alusivos ao mar e à pesca.

Substituto do tradicional foquim em madeira, estes baús foram depois substituídos pelas atuais lancheiras em material plástico.  

Em exposição no Museu, durante o mês de dezembro.

Medalha de condecoração a pescador


Medalha de condecoração a pescador
atribuída pelo Instituto de Socorros a Náufragos, séc. XX
2,5 cm (diâmetro)
Doada por Joaquim Oliveira (Espólio de Eurico Castro e Silva), 1972
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 10 Med.


Medalha de condecoração atribuída a um pescador, pelo Instituto de Socorros a Náufragos, reconhecendo a sua ação em momento de salvamento no mar.

Durante o inverno, à Nazaré, cada vez mais acorrem turistas e desportistas para admirar a grandiosidade das suas ondas. No entanto, recentemente descobertas pelos surfistas de todo o mundo, na região, as ondas desde sempre constituíram um desafio para quem lida com o mar diariamente.

Como escreveu Artur Pastor (“Nazaré. Portugal”, 1958), “o mar típico da Nazaré, que evoca a luta e a tragédia – é o mar onde só os grandes se arriscam”.

Até meados do século XX, em embarcações de madeira, movidas a remos ou com auxílio de velas, as companhas faziam-se ao mar, nem sempre sabendo nadar. A súbita mudança do estado do mar, a ondulação forte ou outro motivo inesperado podia converter-se em perigo eminente de naufrágio.

Para prestar apoio às vítimas, em 1901, é reorganizado o Serviço de Socorros a Náufragos, fundado pela Rainha D. Amélia. Na Nazaré, na dita “Casa da Barca”, localizada no edifício da Capitania, a Barca Salva-Vidas “Nossa Senhora dos Aflitos”, com as suas cores branco e vermelho, estava sempre pronta para entrar ao mar em caso de aflição; foi seu primeiro “patrão” Joaquim Bernardo de Sousa Lobo.

Durante décadas, vários pescadores praticaram salvamentos em atos de verdadeiro heroísmo que lhes mereceram, por parte do Instituto de Socorros a Náufragos, várias condecorações e reconhecimento público.


É exemplo esta medalha, assim como outras que integram a coleção do Museu Dr. Joaquim Manso.Em emolduramento, sugerindo duas âncoras cruzadas, a medalha circular regista, ao centro, a legenda "SPES". No verso, "V.G". Um rebordo branco apresenta a legenda: "I.S.N. Caridade Filantropia". Fita de suspensão verde com risca branca ao centro.

Consulte mais medalhas e diplomas de condecoração da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso na base de dados MatrizNet

Procissão de Nossa Senhora da Nazaré, andor




Álvaro Laborinho (1879 - 1970)
Procissão de Nossa Senhora da Nazaré, andor, 8 setembro 1931
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 1400 Fot.
 

Setembro é o mês das Festas na Nazaré!
A 8 de setembro, dia em que a Igreja assinala a Natividade de Nossa Senhora, celebra-se o Dia de Nossa Senhora da Nazaré, sendo este o feriado municipal da Nazaré, vila onde o Museu Dr. Joaquim Manso se encontra localizado.

Esta é uma fotografia da autoria do nazareno Álvaro Laborinho, de um aspecto da Procissão de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio, a 8 de setembro de 1931. Em primeiro plano, à direita, dispõem-se o padre e elementos da Irmandade; à esquerda, o pálio e o andor com a imagem de Nossa Senhora da Nazaré. Em segundo plano, acumulam-se os crentes. Atrás, avista-se uma parte do edifício do Palácio Real e do Santuário.

CONTA A LENDA que, em 14 de setembro de 1182, quando D. Fuas Roupinho, alcaide-mor do Castelo de Porte de Mós, andava à caça nesta região, terá encontrado um veado. Ao ser perseguido, o veado, que seria o demónio disfarçado, precipita-se do alto do promontório sobre o mar, salvando-se D. Fuas miraculosamente, por intercessão de Nossa Senhora da Nazaré, cuja imagem aí estava escondida numa pequena gruta e, segundo a tradição, fora executada pelo próprio São José, em Nazaré da Palestina, e trazida pelo último rei godo, D. Rodrigo, e Frei Romano. Em ação de graças, nesse local, D. Fuas mandou construir a pequena Ermida da Memória e, a partir do séc. XIV, tem início a edificação do Santuário, que desde sempre recebeu a proteção real e que ainda hoje acolhe numerosos peregrinos e turistas.

COM A DIVULGAÇÃO DOS MILAGRES DA SENHORA DA NAZARÉ, o "Sítio" (do Milagre) converteu-se num importante centro de peregrinação e o culto estendeu-se quer dentro do país quer além-fronteiras, pelo império português, tendo hoje significativa expressão no Brasil, em Belém do Pará. Anualmente, em setembro, aqui se realizam as "Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré" (cf. CNSN), atraindo vários Círios, o mais conhecido o "Círio da Prata Grande" (saiba + aqui).

O MUSEU DR. JOAQUIM MANSO – MUSEU DA NAZARÉ, para além do espólio fotográfico, possui numerosas obras referentes a esta solenidade e culto em honra de Nossa Senhora da Nazaré, desde uma importante coleção de “registos de santo”, “lâminas”, obras de arte, ourivesaria e objetos etnográficos vários.

Consulte outras edições do “Objeto do Mês de Setembro” sobre as Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré:


- Mário Botas, “Milagre de Nossa Senhora da Nazaré 
- "Tábua de Milagre", 1776
- Lâmina de Nossa Senhora da Nazaré
- A Biblioteca sugere: http://mdjm-nazare-lojaebiblioteca.blogspot.pt/2012/09/lendas-de-portugal.html


+ informação sobre esta fotografia no MatrizNet