Abílio, "Casario da Nazaré", 1934



Abílio de Mattos e Silva (Sardoal, 1908 – Lisboa, 1985)
Casario da Nazaré, 1934
Óleo sobre tela, 69x56 cm
Legado de Abílio de Mattos e Silva e Maria José Salavisa de Mattos e Silva (autor e esposa), 1986
MDJM inv. 122 Pint.


Em janeiro de 2018, destacamos uma obra de Abílio, pintor icónico da Nazaré, no ano em que se comemoram os 110 anos do seu nascimento.

Esta composição de um trecho urbano da Nazaré tradicional foi pintada em 1934, período em que o autor viveu nesta localidade.

Abílio foi pintor e ilustrador, elegendo como dois cenários fundamentais do seu trabalho a Nazaré e Óbidos, onde existe um museu com o seu nome. Natural do Sardoal, tendo iniciado o Curso de Direito em Lisboa, acaba por optar pela função pública e é nessa qualidade que vive na vila piscatória da Nazaré nos anos 1930. Mas, a partir de 1936, com a peça "Tá-Mar" de Alfredo Cortez, apresentada em Lisboa, Abílio inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro.

Nas suas pinturas a óleo ou a aguarela, o autor reproduziu este e outros recantos da Nazaré, marcada pelo casario branco, ruas estreitas e pátios, sempre povoados por elementos da comunidade em diálogo, à conversa ou envolvidos nas suas atividades diárias. O seu interesse pela valorização do património da Nazaré, aliado ao seu trabalho de figurinista, conduzem-se a um exaustivo e pormenorizado levantamento sobre as características do traje tradicional da região, que reunirá no livro “O Trajo da Nazaré”, editado já nos anos 1970.

É também ele uma das primeiras vozes a defender a criação de um Museu da Nazaré, em 1955, intenção que se viria a concretizar apenas nos anos 1970.

O Museu Dr. Joaquim Manso possui uma assinalável coleção de desenhos, aguarelas e óleos de Abílio, legadas à instituição em 1986 (assinalando o 10º Aniversário da Inauguração), pela esposa do artista, a decoradora Maria José Salavisa de Mattos e Silva.

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Ex-Voto "Nossa Senhora da Nazaré"




Ex-Voto “Nossa Senhora da Nazaré”, 1776
Óleo sobre madeira, 22,2x31 cm
Doado por Noémia Garcia Calixto, 1982
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 171 Pint.


Dezembro remete-nos para a natividade; para além da quadra natalícia, em Portugal, até há poucos anos atrás, o Dia da Mãe era celebrado a 8 de dezembro.

Por isso, este mês, destacamos da nossa coleção um pequeno quadro que nos fala de nascimento e de um "milagre"!

Um “Ex-Voto” ou “Tábua de Milagre” é um objeto de devoção, frequentemente popular e realizado por um autor desconhecido, exprimindo o agradecimento a um santo ou à Virgem.

No Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, a par de outras modalidades de invocações e cumprimento de promessas, era frequente oferecer “à Senhora” pequenos quadros como este ex-voto da coleção do Museu Dr. Joaquim Manso, que invoca o agradecimento da devota a Nossa Senhora da Nazaré por a ter salvo de um parte doloroso, em 1776.

Produzida a óleo sobre madeira, a pintura narra vários momentos do episódio milagroso; repare-se na representação do quarto de dormir com mobiliário de certo requinte, em cuja cama de dossel se vê a parturiente rodeada por várias figuras, uma delas um padre orando, outra amamentando uma criança e outra embalando-a no berço. O marido da devota, ajoelhado e de mãos postas, reza à Virgem, perante um quadro pintado de grandes dimensões, suspenso na parede, representando o Milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho.

Como habitual, sob a área pintada, descreve-se o milagre através de uma legenda, já parcialmente omissa, mas que inicia por “Milagre que fes Nossa Senhora da Nazareth a Dona Roza que estando muito mal de hum parto (...)”.

Pescador do Bacalhau


© ADF/DGPC, José Pessoa

Leopoldo de Almeida (1898-1975)
Pescador do Bacalhau, 1944
Gesso patinado, alt. 68 cm
Oferta do autor, 1975
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 19 Esc.

As longas campanhas nos navios da pesca do bacalhau marcaram gerações de homens da costa portuguesa. Decorriam sobretudo entre março e outubro, quando a chamada “Frota Branca” enchia os frios mares do Norte.

Muitos foram os pescadores da Nazaré que andaram ao bacalhau. Em busca de melhores condições de vida, e perante a incerteza da pesca local, as campanhas do bacalhau fazem parte das “histórias de vida” de muitos nazarenos.
 

As partidas e chegadas aos portos eram momentos de grande emoção, vividos entre lágrimas e sorrisos, com a presença de muitos familiares.

Esta escultura de Leopoldo de Almeida transmite-nos uma representação idealizada do Pescador do Bacalhau. Descalço, em ligeiro contraposto, com olhar cabisbaixo, como que em momento de descanso, veste camisola e calças arregaçadas, sendo o sueste que lhe cobre a cabeça o principal elemento que o associa à Faina Maior.

Produzida em 1944, período áureo desta pesca, esta escultura integra-se também na época das grandes encomendas públicas fomentadas pelo Estado Novo, para as quais Leopoldo de Almeida foi um dos principais escultores, com obras que correspondem ao programa ideológico e estético do regime e da “Política do Espírito” de António Ferro. O pescador do bacalhau é, assim, erguido a herói, numa representação dentro do ideário classicizante do autor, que escamoteia as agruras das campanhas no frio dos Bancos da Terra Nova e da Gronelândia.

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O Museu Dr. Joaquim Manso é detentor de vários objetos e documentação associada à pesca do bacalhau, doados por artistas e pela comunidade. Conheça aqui alguns desses objetos:
Sueste
Camisola
Botas
Zagaia
Creoula

Algumas expressões nazarenas relacionadas com a pesca do bacalhau:
Seca fatos de oleado 
O Bacalhau e América vai Tud' M'rrer à Faneca


Lázaro Lozano, "Esboço para um quadro"

© José Pessoa/ADF


Bonifácio Lázaro Lozano (Nazaré, 1906 – Madrid, 1999)
Esboço para um quadro, 1977
Pastel e aguarela sobre papel
Oferta do autor, 1979
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 97 Pint.


Conforme anotação manuscrita no canto inferior esquerdo, esta pintura é um estudo para uma obra posterior, com figuras e temática associada à Nazaré, onde o artista nasceu e viveu durante alguns anos.

Bonifácio Lázaro Lozano, de ascendência espanhola, nasceu em 1906 na Nazaré,
localidade piscatória onde viviam seus pais com outros dois filhos. No ano seguinte, a família ruma a Setúbal, onde se estabelece com uma fábrica de conservas.

Cedo, Lázaro Lozano demonstrou gosto pela arte; foi aluno Veloso Salgado na Escola de Belas-Artes de Lisboa e conclui a sua formação em 1931, em Madrid, na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando.

Em 1934, com uma bolsa de estudo dessa instituição, escolhe a Nazaré como destino por dois anos. Aqui, deixa-se impressionar pelas gentes do mar, pintando retratos individualizados ou cenas de grupos, com rostos vigorosos e fortes, mas também sofredores, envolvidos no desenrolar de atividades piscatórias ou em cenários indefinidos.

Com uma vida repartida entre Portugal e Espanha, a sua obra é vasta e distribui-se por várias fases, desde as formas mais simples a uma forte carga expressiva. Mas as figuras da Nazaré são uma presença constante.

Para além do Museu da Nazaré, Lázaro Lozano está representado noutras instituições, como o Museu José Malhoa (Caldas da Rainha), o Museu Nacional de Arte Contemporânea (Lisboa), o Museu Dr. Santos Rocha (Figueira da Foz) e o Museu de Setúbal (Convento de Jesus); em Espanha, destaque para o Museu de la Real Academia de San Fernando, o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Madrid) e o Museo de Bellas Artes de Badajoz.


+ informação sobre esta e outras obras de Lázaro Lozano no Museu Dr. Joaquim Manso em MatrizNet


Lâmina "Milagre de Nossa Senhora da Nazaré"



Registo de Santo ou Lâmina ou Chapa
"Milagre de Nossa Senhora da Nazaré", séc. XX
Virgínia Teixeira Peixoto, Sítio da Nazaré
diam. 13 cm
Doado por Noémia Tito Calixto, 1982
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 330 Grav. 


Em setembro, decorrem as Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré, cujo dia se celebra no dia 8. O culto a Nossa Senhora da Nazaré motivou a criação de "lâminas" ou "lâmedas" ou "chapas", trabalhos populares com uma dupla função, votiva e recordação da deslocação do peregrino ao Santuário.

Por norma são pequenos quadros (rectangulares, alguns circulares), preparados para serem suspensos na parede ou em pequeno oratório.

São realizados a partir de uma gravura (“registo de santo” do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho), envolta por pormenores florais ou outros elementos alusivos ao mar e à pesca, pintados a anilina ou realizados com colagens de papéis coloridos e tecido. Protege a composição um vidro delimitado por filete colorido ou uma a “caixa de vidro” com moldura mais ou menos elaborada.

Eram vários os “santeiros” que se dedicavam a este trabalho no Sítio da Nazaré. Entre eles destacou-se Virgínia Teixeira Peixoto, de cujos trabalhos o Museu Dr. Joaquim Manso possui uma colecção significativa, de que é exemplo a peça em destaque durante o mês de setembro.


Este é um trabalho artístico popular com base num "registo de santo" do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré, coberto de acetato com moldura bordada por cercadura de duplo foliculado; em volta desta moldura, um círculo igualmente em fio metálico envolve lantejoulas avermelhadas com caule metálico simbolizando flores; tem ainda um remate em forma de estrela, decorada com duas fiadas de fio metálico, igualmente enfeitadas com lantejoulas de cor vermelha e pétalas douradas.
Assenta num círculo de prata verde, que, por sua vez, está colado em fundo de prata branca.Todo o conjunto está colado em cartão e a moldura é de formato circular em metal, com aselha metálica, suspensa por uma fita de veludo vermelho, que agarra num motivo decorativo metálico para pendurar.


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Consultar outras lâminas "Objeto do Mês".

Abílio, "Casais em trajo de festa"



Abílio de Mattos e Silva (1908-1985)
“Casais em trajo de festa”, s.d.
técnica mista sobre papel
alt. 29,5 x larg. 20 cm
legado de Abílio de Mattos e Silva e de Maria José Salavisa de Mattos e Silva (autor e esposa), 1986
Museu Dr. Joaquim Manso inv. 126 Des.


A Nazaré é uma terra que promove paixões, encontros singulares com a natureza e a vivência muito própria das gentes do mar, fortalecendo o desejo de regressar. Muitos dos que por aqui passaram ficaram encantados com a beleza da paisagem e da praia, com o tipicismo e rostos das gentes e com as cores e formas do seu trajar. Assim aconteceu com Abílio de Mattos e Silva (1908-1985).

Esta pintura insere-se na temática nazarena da obra do pintor, possivelmente realizada durante o período em que residiu na Nazaré, nos anos 1930.

Pintor e ilustrador,
elegendo a Nazaré e Óbidos como dois cenários fundamentais do seu trabalho, com a peça "Tá-Mar" de Alfredo Cortez, Abílio inicia uma longa e notável carreira como cenógrafo e figurinista, traduzida em incontáveis realizações no domínio do Bailado, da Ópera e do Teatro.

Em 1986, no 10º Aniversário do Museu Dr. Joaquim Manso, as suas obras relacionadas com a Nazaré são legadas a esta instituição, nomeadamente um conjunto assinalável de desenhos e pinturas que servem de ilustração à investigação meticulosa realizada por Abílio sobre o traje da Nazaré, de que resulta o livro “O traje da Nazaré”, publicado em 1970. É exemplo esta pintura “Casais em trajo de festa”.

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Busto do Dr. Joaquim Manso




António da Costa
Busto do Dr. Joaquim Manso, 1926
Bronze, alt. 30 cm
MDJM inv. 22 Esc.


“Portugal, país situado a ocidente da Península, banhado pelo Oceano, com seis milhões de habitantes. Com estas resumidas noções, a nossa história não tem explicação, se a não contarmos como um prodígio, à face do mundo”.

Excerto do livro de Joaquim Manso, “Malícia sem Maldade”, Livraria Bertrand, 1937. 

 

Completando-se a 6 de junho mais um aniversário do Museu Dr. Joaquim Manso, destacamos este mês o busto do seu patrono, oferecido pelos trabalhadores do jornal “Diário de Lisboa”, no ano da inauguração do Museu, em 1976.

Joaquim Manso (Cardigos, 1878 – Lisboa, 1956) foi jornalista, escritor e ensaísta. Formado em Teologia, ordenou-se sacerdote e, nessa qualidade, foi autor de algumas brochuras intituladas “Commentarios” (1901-03), assinadas por Padre Manso. A seu pedido, libertou-se dos votos religiosos e, em 1913, obteve o grau de bacharel em Direito.
 

Fundou (1921) e dirigiu o conhecido “Diário de Lisboa” durante 35 anos, tendo já antes colaborado em publicações periódicas como a “A Capital” e a “Pátria”, ou as revistas “Arte & Vida” (1904-06) e “Atlântida” (1915-20).

Foi secretário de Bernardino Machado, enquanto Ministro dos Estrangeiros; Governador Civil de Vila Real; sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e professor do Conservatório Nacional de Lisboa, onde regeu a cadeira de “Literaturas Dramáticas”.

Autor de vasta produção literária, de que se refere, entre outros, os seguintes títulos: "O Pórtico e a Nave"; "Fábulas"; "Malícia sem maldade"; "Os Amores de Pedro e Inês"; "O Fulgor das Cidades"; "Alma Inquieta"; "Pedras para a Construção dum Mundo"; "Manoel"; "Primavera da Lenda"; "A Consciência Nua e Abandonada".

Entre os vários amigos, contam-se alguns nazarenos, entre eles o construtor civil Amadeu Gaudêncio. Dessa amizade resultaram várias deslocações à Nazaré e um gosto pela cultura desta vila piscatória.

Este Museu encontra-se instalado na sua antiga casa de veraneio, doada ao Estado em 1968, para aqui se instalar o Museu da Nazaré, tendo sido condição do seu doador - Amadeu Gaudêncio -, que o mesmo tivesse o nome de “Museu Etnográfico e Arqueológico do Dr. Joaquim Manso”, em homenagem ao homem que tanto divulgara a cultura nazarena nas suas palestras e lides jornalísticas.

Anos mais tarde, o Museu vem a receber parte da sua coleção de arte e espólio epistolar. 



Para “saber +” sobre Joaquim Manso e conhecer as obras da sua coleção neste Museu, consulte o MatrizNet.